Acordando

Antero de Quental (1842–1891)

Em sonho, às vezes, se o sonhar quebrantaEste meu vão sofrer; esta agonia,Como sobe cantando a cotovia,Para o céu a minh'alma sobe e canta.

Canta a luz, a alvorada, a estrela santa,Que ao mundo traz piedosa mais um dia...Canta o enlevo das cousas, a alegriaQue as penetra de amor e as alevanta...

Mas, de repente, um vento humido e frioSopra sobre o meu sonho: um calafrioMe acorda. — A noite é negra e muda: a dor

Cá vela, como d'antes, ao meu lado...Os meus cantos de luz, anjo adorado,São sonho só, e sonho o meu amor!