A um crucifixo

Antero de Quental (1842–1891)

Odes modernas (1875) — Livro Segundo

Ha mil annos, bom Christo, ergueste os magros braçosE clamaste da cruz: ha Deus! e olhaste, ó crente,O horizonte futuro e viste, em tua mente,Um alvor ideal banhar esses espaços!

Porque morreu sem eccho o eccho de teus passos,E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?Morreste… ah! dorme em paz! não volvas, que descrenteArrojáras de nova á campa os membros lassos…

Agora, como então, na mesma terra erma,A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario…

E agora, como então, viras o mundo exangue,E ouviras perguntar—de que servio o sangueCom que regaste, ó Christo, as urzes do Calvario?—