A Origem do Mênstruo

Bernardo Guimarães (1825–1884)

‘Stava Vênus gentil junto da fonteFazendo o seu pentelho,Com todo o jeito, p’ra que não se ferisseDas cricas o aparelho.

Tinha que dar o cu naquela noiteAo grande pai Anquises,O qual, com ela, se não mente a fama,Passou dias felizes...

Rapava bem o cu, pois resolvia,Na mente altas ideias:— Ia gerar naquela heróica fodaO grande e pio Enéias.

Mas a navalha tinha o fio rombo,E a deusa, que gemia,Arrancava os pentelhos e, peidando,Caretas mil fazia!

Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,Acaso ali passava,E vendo a deusa assim tão agachada,Julgou que ela cagava...

Essa ninfa travessa e petulanteEra de gênio mau,E por pregar um susto à mãe do Amor,Atira-lhe um calhau...

Vênus se assusta. A branca mão mimosaSe agita alvoroçada,E no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)Tremenda navalhada.

Da nacarada cona, em sutil fio,Corre purpúrea veia,E nobre sangue divino comoAs águas purpureia...

(É fama que quem bebe desta águasJamais perde o tesãoE é capaz de foder noites e dias,Até no cu de um cão!)

— “Ora porra!” — gritou a deusa irada,E nisso o rosto volta...E a ninfa, que conter-se não podia,Uma risada solta.

A travessa menina mal pensavaQue, com tal brincadeira,Ia ferir na mais morosa parteDa deusa regateira...

— “Estou perdida!” — trêmula murmuraA pobre Galatéia,Vendo o sangue a correr do róseo conoDa poderosa déia...

Mas era tarde! A Cípria, furibunda,Por um momento a encara,E, após instantes, com severo acanto,Nesse clamor dispara:

“Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,Que crime cometeste!Que castigo há no céu, que punir possaUm crime como este?!

Assim, por mais de um mês inutilizasO vaso das delícias...E em que hei de gastar das longas noitesAs horas tão propícias?

Ai! Um mês sem foder!Que atroz suplício...Em mísero abandono,Que é que há de fazer, por tanto tempo,Este faminto cono?...

Ó Adonis! Ó Júpiter potente!E tu, mavorte invicto!E tu, Aquiles! Acode de prontoDe minha dor ao grito!

Esse vaso gentil que eu tencionavaTornar bem fresco e limpoPara recreio e divinal regaloDos deuses do Alto Olimpo,

Vede seu triste estado, ó! Que esta vidaEm sangue já se esvai-me!Ó Deus, se desejas ter foda certaVingai-vos e vingai-me!

Ó ninfa, o teu cono sempre atormentePerpétuas comichões,E não aches quem jamais nele queiraVazar os seus culhões...

Em negra podridão imundos vermesRoam-te sempre a crica,E à vista dela sinta-se banzeiroA mais valente pica!

De eterno esquentamento flagelada,Verta fétidos jorros,Que causem tédio e nojo a todo mundo,Até mesmo aos cachorros!!!”

Ouviu-lhe estas palavras piedosasDo Olimpo o Grão-Tonante,Que em pívia ao sacana do CupidoComia neste instante...

Comovido no íntimo do peito,Das lástimas que ouviu,Mandou o menino que, de pronto, acudaÀ puta que o pariu...

Ei-lo que, pronto, tange o veloz carroDa concha alabastrina,Que quatro aladas porras vão tirandoNa esfera cristalina

Cupido que as conhece e as rédeas bateDa rápida quadriga,Co’a voz ora as alenta, ora co’a pontaDas setas as fustiga.

Já desce aos bosques onde a mãe aflita,Em mísera agonia,Com seu sangue divino o verde musgoDe púrpura tingia...

No carro a toma e num momento chegaÀ olímpica morada,Onde a turba dos deuses, reunida,A espera consternada!

Já Mercúrio de emplastros se aparelhaPara a venérea chaga,Feliz porque naquele curativoEspera certa paga...

Vulcano, vendo o estado da consorte,Mil pragas vomitou...Marte arranca um suspiro que as abóbadasCelestes abalou...

Sorriu a furto a ciumenta Juno,Lembrando o antigo pleito,E Palas, orgulhosa lá consigo,Resmoneou: — “ Bem feito!”

Coube a Apolo lavar dos roxos líriosO sangue que escorria,E de tesão terrível assaltado,Conter-se mal podia!

Mas, enquanto se fez o curativo,Em seus divinos braços,Jove sustém a filha, acalentando-aCom beijos e com abraços.

Depois, subindo ao trono luminoso,Com carrancudo aspecto,E erguendo a voz troante, fundamentaE lavra este Decreto:

—“Suspende, ó filho, os lamentos justosPor tão atroz delito,Que no tremendo Livro do DestinoDe há muito estava escrito.

Desse ultraje feroz será vingadoO teu divino cono,E as imprecações que fulminasteAgora sanciono.

Mas, ainda é pouco: — a todas as mulheresEstenda-se o castigoPara expiar o crime que esta infameOusou para contigo...

Para punir tão bárbaro atentado,Toda humana crica,De hoje em diante, lá de tempo em tempo,Escorra sangue em bica...

E por memória eterna chore sempreO cono da mulher,Com lágrimas de sangue, o caso infando,Enquanto mundo houver...”

Amém! Amém! Com voz atroadoraOs deuses todos urram!E os ecos das olímpicas abóbadas,Amém! Amém! Sussurram...