À sepultura de um escravo
Poesias — Cantos da solidão
Tambem do escravo a humilde sepulturaUm gemido merece de saudade:Uma lagrima só corra sobre ellaDe compaixão ao menos....Filho da Africa, emfim livre dos ferrosTu dormes socegado o eterno somnoDebaixo d’essa terra que regasteDe prantos e suores.
Certo, mais doce te seria agoraJazer no meio lá dos teus desertos
A’ sombra da palmeira, — não faltáraPiedoso orvalho de saudosos olhosQue te regasse a campa;Lá muita vez, em noites d’alva lua,Canção chorosa, que ao tanger monotonoDe rude lyra teus irmãos entoão,Teus manes acordara:Mas aqui — tu ahi jazes como a folhaQue cahio na poeira do caminho,Calcada sob os pés indifferentesDo viajor que passa.
Porém que importa — se repouso achaste,Que em vão buscavas n’este valle escuro,Fertil de pranto e dôres;Que importa — se não ha sobre esta terraPara o infeliz asylo socegado?A terra é só do rico e poderoso,E d’esses idolos que a fortuna incensa,E que, ebrios de orgulho,Passão, sem ver que co’as velozes rodasSeu carro d’ouro esmaga um mendiganteNo lodo do caminho!....Mas o céo é d’aquelle que na vida
Sob o peso da cruz passa gemendo;É de quem sobre as chagas do inditosoDerrama o doce balsamo das lagrimas;É do orphão infeliz, do ancião pesado,Que da indigencia no bordão se arrima;É do pobre captivo, que em trabalhosNo rude afan exhala o alento extremo;— O céo é da innocencia e da virtude,O céo é do infortunio.
Repousa agora em paz, fiel escravo,Que na campa quebraste os ferros teus,No seio d’essa terra que regasteDe prantos e suores.E vós, que vindes visitar da morteO lugubre aposento,Deixai cahir ao menos uma lagrimaDe compaixão sobre essa humilde cova;Ahi repousa a cinza do Africano,— O symbolo do infortunio.