Cadaver em putrefacção

Charles Baudelaire (1821–1867)

Translated from French by Delfim Guimarães

Flores do Mal

Recordas, meu amor, ainda horrorizada,O animal nojentoQue um dia de verão encontramos na estrada,Já podre e fedorento?De pernas para o ar, como mulher viciosaArdente de paixões,Deixava a descoberto a barriga asquerosa,Prenhe de exalações..

Queimava a luz do sol aquela massa imunda,Fazendo-a transformarEm novos materiaes, que a Natura fecundaConsegue aproveitar.Fitava o claro ceu a carcassa indecente,Como a um vergel em maio,E o fedor era tal que eu vi-te de repenteEm risco de um desmaio.As moscas, a zumbir, cobriam o asquerosoCorpo em putrefacção,E os vermes, em tropel, num líquido viscoso,Formavam legião.Era um longo cortejo, uma procissão raraDe vermes corrosivos;Dir-se-ia que o animal morto ressuscitaraEm milhões de ser’s vivos.E d’essa multidão elevava-se um brado,Um ruído fagueiro,Como o som que produz o trigo joeiradoNa rede d’um peneiro.Á luz do nosso olhar, tudo se transformavaN’um sonho de tremer...Visão cheia de horror que na mente se gravaE não torna a esquecer.

Por detrás d’um rochedo, uma cadela, inquieta,Com uivos estridentes,Aguardava ocasião para na carne infectaIr aguçar os dentes...— Ai! ter de me lembrar que has de ser semelhanteÁ horrivel infecção,Ó luz do meu olhar, o meu sol deslumbrante,Minha ardente paixão!Que assim tu has de ser, ó anjo que me encantas,Quando o teu corpo inermeDesfeito em podridão, sob a raiz das plantas,Alimentar o verme!Então, ó meu amor, dize á larva brutalQue te beijar o rostoQue eu guardei o contorno e a essência divinalDo teu corpo gentil antes de decomposto!