Desmoronamento
Dentro do coração, no côncavo do peitoChoro a grande ilusão do amor, desfalecida,Dentre o gozo feliz, nostálgico da vida;Já exangue, afinal, já morto, já desfeito.
Por visões que adorei num vago tempo incertoNão sei por que razão avivo agora as mágoas,Num pranto doloroso e triste, como as águasDo mar grosso a bater sobre o costão deserto.
Tu, ó doce visão de perfumosas tranças,Todo o meu puro e terno sentimento invadesE eu não sei o que fiz das minhas esperançasQue de longe que vão parecem mais saudades.
Tudo o que houve em meu ser de compaixão e crençaPara sempre secou, secou já como um rio;Para sempre também subi ao escombro frioDa dúvida mortal, avassalante, imensa.
Para sempre me achei sem bússola e sem rumoNo fundo de regiões estranhas e afastadas...As almas que eu amei, vi mudas e apagadas,Vi tudo se sumir numa espiral de fumo.
Bem depressa fiquei como um ermo remotoComo torvo areal sem plantas e sem fontes,Donde apenas se vê rasgar a terra o brotoDo cardo retorcido e áspero dos montes.
Muitas vezes, porém, como entre os arvoredosOnde juntas, no val, todas as aves cantamNo meio do rumor, de sombras e segredos,Sinto dentro de mim que uns sonhos se levantam.
Borboleteio, a rir, por entre os sons e as flores,Como um pássaro azul de uma plumagem lindaE canto alegremente a canção dos amores,Que este peito viril sabe cantar ainda.
Lembro então corações que já me abandonaram,Que eu senti palpitar, por sobre o meu pulsando,Que vão hoje através das afeições chorando,Que sofreram comigo e que comigo amaram.
Entretanto a minh’alma em vôo largo e ufano,De repente triunfal, de súbito gloriosa,Tem a pompa de sol, vermelha e luminosa,Da púrpura esvoaçante e aberta de um romano.
E esse fulgor, que vem dos meus sonhos dispersosNa névoa do passado, errantes e dolentes;Dá-me árdidos corcéis fogosos e frementesPara atrelar, jungir ao carro destes versos.
Claramente recordo e penso nas estradasQue percorri, que andei às ilusões, sozinho,Vendo que todo o amor das virginais amadas,Tinha a mesma fatal embriaguez do vinho.
Quantos entes febris, que o amor embriaga e ofuscaAssim, durante a vida, ansiosamente exaustos,Não encontram, talvez, dessas visões em busca,As Margaridas vãs dos ilusórios Faustos!