Diante do Mar

João da Cruz e Sousa (1861–1898)

Para matar o letargoDa vida, e o profundo tédio,Fui, em busca de remédio,Ao cais arejado e largo.

E vi o mar formidando,Cheio de mastros e velas,Ocultos clarins vibrandoPela boca das procelas.

Vi tropéis e tropéis bruscosDe ondas revoltas e crespasCom rijos ferrões de vespasFerreteando os ares fuscos.

Vi os límpidos naviosJogados do mar incertoComo seres erradiosPor inóspito deserto.

Vi tudo nublado, tudo,Céus e mares e horizontes;E sobre a linha dos montesCair o silêncio mudo.

E eu lembrei-me quando a auroraSobre aquelas esverdeadasÁguas jorrava sonoraA luz em puras golfadas.

Lembrei-me desses supremosDias acres de alegriaNa vaga loura e maciaAs leves palmas dos remos.

Do resplendor das viagensNum encanto matutinoA doçura das aragens,Por sobre o mar cristalino.

A bicar as doces ilhasDe pedra, musgos e flores,Cheias de ervas e frescoresE naturais maravilhas.

Que ela a tudo perfumasseComo um rosal que floresceQue tudo que nela houvesseResplandecesse e cantasse.

Ou ver na frente das casas,Dos vales e das colinasOs pombos batendo as asas,Entre festões de boninas.

Ir a pesca alegre e frescaPor suavíssimos luares,Numa lua pitoresca,Em cima dos salsos mares.

Quando flexível canoaVai deixando um vivo rastro,Fundo, aberto, feito de astro,Na vaga que brilha e soa.

Quando na margem campestreDe rios indefinidosSente-se o aroma silvestreDos aloendros floridos.

Lembrei-me até das regatasNuma hora deliciosaDe manhã cheirando a rosa,Toda de fúlgidas pratas.

D’embarcar, como um fidalgo,Para aventuras de caça,Em companhia do galgoQue é das caçadas a graça.

Ir d'espingarda e d’estilo,Por madrugadas serenas,Sem males, sem dor, sem penas,Peito bizarro e tranqüilo.

Bater as aves no matoPor entre arvoredos graves,Ou da beira de um regatoVer saltar em bando as aves.

E da ventura nos jorrosVoltar da caça repletoVendo ao longe o rubro tetoDa casa e o verde dos morros.

Ou então ir como um duqueNas praias de mais belezaGozar na choça de estuqueUns olhos de camponesa.

Sentir do equóreo elemento,Sobre as serras verdejantes,Ruflantes e sussurrantesAs ventarolas do vento.

Deixar o espírito, avaroDe vida, saúde e forçaDisparar — alada corça —Pelo azul radioso, claro.

Assim, talvez que o NirvanaDo tédio e letargo imensoNão fosse uma dor humana,Dentre um nevoeiro tão denso.