Falando ao Céu

João da Cruz e Sousa (1861–1898)

Falas ao Céu, Amor! Em vão tu falas!Mas o céu, esse é velho, esse é velhinho,Todo ele é branco, faz lembrar o linhoDos leitos alvos onde tu te embalas.

A alma do céu é como velhas salasSem ar, sem luz, como lares sem vinhoSem água e pão, sem fogo e sem carinho,Sem as mais toscas, as mais simples galas.

Sempre surdo, hoje o céu é mudo, é cego...Jamais o coração ao céu entrego,Eu que tão cego vou por entre abrolhos.

Mas se queres tornar jovem e louroDá-lhe o bordão do teu amor um poucoFala e vista, com a vida dos teus olhos...