Voz fugitiva

João da Cruz e Sousa (1861–1898)

Às vezes na tu'alma que adormeceTanto e tão fundo, alguma voz escutoDe timbre emocional, claro, impolutoQue uma voz bem amiga me parece.

E fico mudo a ouvi-la como a preceDe um meigo coração que estaá de lutoE livre, já, de todo o mal corruto,Mesmo as afrontas mais cruéis esquece.

Mas outras vezes, sempre em vão, procuroDessa voz singular o timbre puro,As essências do céu maravilhosas.

Procuro ansioso, inquieto, alvoroçado,Mas tudo na tu'alma está calado,No silêncio fatal das nebulosas.