Inferno — VI

Dante Alighieri (1265–1321)

Translated by José Pedro Xavier Pinheiro

A Divina Comédia — grafia atualizada

Do soçobro tornando a aflita mente,Que da cópia infelice contristadoHavia tanto o padecer pungente,

Achei-me novamente circundadoDe outros míseros, de outras amarguras,Que via em toda parte, ao longe e ao lado.

Sou no terceiro círculo, onde escuras,Eternas chuvas, gélidas caíam,Pesadas, sempre as mesmas, sempre impuras.

Saraiva grossa, neve, água desciamDesse ar pelas alturas tenebrosas:No chão caindo infeto odor faziam.

Latia com três fauces temerosas,Cérbero, o cão multíface e furente,Contra as turbas submersas, criminosas.

Sangüíneos olhos tem, o ventre ingente,Barba esquálida, as mãos de unhas armadas;Rasga, esfola, atassalha a triste gente.

Uivam à chuva, quais lebréus, coitados!Mudam de lado sem cessar, buscandoDefensa e alívio, as almas condenadas.

Cérbero, o grão réptil, nos divisandoOs dentes mostra, as bocas escancara,De sanha os membros todos convulsando.

Meu Guia, as mãos abrindo, se prepara:Enche-as de terra, e às guelas devorantesLança da fera essa iguaria amara.

Qual mastim, que em latidos retumbantesBrada de fome, e, apenas a saciaDevorando, aquieta as iras de antes:

Tal, aplacando a fúria, pareciaO demônio que as almas atordoa:Surdez de ouvi-lo o mal lhes pouparia.

O solo, onde pisamos, se povoaDas sombras, que essas chuvas derrubavam:Forma e aparência tinham de pessoa.

Sobre a terra estendidas, a alastravam;Mas uma surge, súbito sentada,Aos passos que adiante nos levavam.

“Tu” — disse — “que és guiado pela estradaDo inferno, vê se acaso me conheces:Nasceste antes de eu ser nesta morada”.

Tornei-lhe: “A grande angústia em que padeces,Tua feição lembrar-me não consente:Inota face aos olhos me ofereces.

“Quem és que em tal lugar tão duramentePelos pecados teus stás dando a pena?Se há maior, nenhuma é tão displicente”. —

— “Em tua pátria” — responde — “que tão plenaJá é de inveja, que transborda o saco,Existência gozei leda e serena.

“Vós, Florentinos, me chamastes Ciacco:Por ter da gula a intemperança amado,À chuva peno enregelado e fraco.

“Mas sou nesta miséria acompanhado;Pois quantos aqui estão de igual castigoPunidos foram por igual pecado”. —

— “Com dor sincera” — lhe falei — “te digoQue esse tormento o peito me enternece.Saberás se os partidos a perigo

“Florença levarão, que já padece?Algum justo ali vive? A que motivoA cizânia se deve, que ali cresce?” —

— “Virão a sangue após ódio excessivo;E o partido selvagem triunfanteO outro lançará feroz e esquivo.

“Três sóis passados, chegará o instanteDe ser pelos vencidos suplantado,Que esforça alguém, que aos dois faz bom semblante.

“Por algum tempo o vencedor ousadoA cerviz calcará do outro partidoQue se aflige oprimido e envergonhado.

“Justos há dois: ninguém lhes presta ouvido.Três brandões — Avareza, Orgulho, Inveja,Incêndio têm nos peitos acendido”. —

Assim a flébil narração boqueja.Eu lhe respondo: “A informação completa;Favor farás a quem te ouvir almeja.

“Farinata e Tegghiaio, de alma reta,Jacopo Rusticucci, Mosca, Arrigo,E os mais que da virtude o amor inquieta,

“Onde estão? Diz e franco sê comigo!Saber qual seja anelo a sorte sua:Stão no céu, ou no inferno têm castigo?” —

“Entre os que sofrem punição mais cruaEstão, por seus maus feitos, lá no fundo:Se lá desces, verão a face tua.

“Quando tomares ao saudoso mundo,De mim aviva aos meus o pensamento...Não mais: volto ao silêncio meu profundo” —

Os olhos que não tinham movimento,Torcendo fita em mim; já curva a frenteE cai entre os mais cegos num momento.

E disse, o Vate: “Em sono permanenteHão de aguardar a angélica chamada,Quando os julgar severo o Onipotente.

“Cad’um, a triste sepultura achada,Ressurgindo na carne e na figura,Voz ouvirá pra sempre reboada”. —

A passo lento assim pela misturaDas sombras e da chuva caminhando,Falávamos da vida, que é futura.

— “Mestre” — lhe disse então — “irá medrandoDepois da grã sentença esse tormento?Igual pungir terá? Será mais brando?” —

— “Do teu saber recorre ao documento:Verás que ao ente quando mais se elevaDo bem, da dor mais cresce o sentimento.

“Bem que esta raça condenada à trevaJamais da perfeição se eleve à alturaRessurgindo, há de ter pena mais seva”. —

Perlustramos do círculo a cintura,De cousas praticando que não digo,Té descer um degrau na estância escura.

Ali’stá Pluto, o nosso grande imigo.