A Morte, que da vida o nó desata

Luís de Camões (1524–1580)

A Morte, que da vida o nó desata,Os nós, que dá o Amor, cortar quizeraCo'a ausencia, que he sôbre elle espada fera,E co'o tempo, que tudo desbarata.

Duas contrárias, que huma a outra mata,A Morte contra Amor junta e altera;Huma, Razão contra a Fortuna austera;Outra, contra a Razão Fortuna ingrata.

Mas mostre a sua imperial potenciaA Morte em apartar de hum corpo a alma,O Amor n'hum corpo duas almas una;

Para que assi triumphante leve a palmaDa Morte Amor a grão pesar da ausencia,Do tempo, da Razão, e da Fortuna.