A cova
Faz mais larga essa cova, estúpido coveiro;Pois não vês que são dois buscando o mesmo leito?É preciso que caiba um longo travesseiro,Para dormirem face a face, e peito a peito.
Virei deitar-me em tempo: hoje não, não me deitoSem que nos braços meus a carregue primeiro:Quero cobri-la bem, pôr-lhe o tronco direito;Que é muito longo sempre o sono derradeiro.
Guarda do cemitério, o jardineiro aí fica,Quero roseiras só, quero muitas roseiras;Que ardam rosas em que seu corpo multiplica.
Que os pássaros aqui cantem horas inteiras:Que esta leiva, em que está da terra a flor mais rica,Seja o teu ninho, amor, quando um ninho, amor, queiras.