O Paca

Luís Delfino (1834–1910)

Eu era inda criança e era já velho o gato:Amava o sol; dormia um longo dia inteiro;Tinha na luz, que entrava, assim como um regatoPelas portas a dentro, áureo e bom travesseiro.

Já não corria mais ao saboroso pratCom o miar doce e agudo e o salto prazenteiro;Já não vinha enroscar o pêlo ao nosso fato;Já não pulava ao armário ao alvorar de um bom cheiro.

Porém quando o meu pai, com sua voz austera,Bradava: — Ó Paca... então ouvia-se um trinadoAlegre, forte, extenso, amplo, a trepar na esfera,

E ele engolia o espaço, ardente, o colo alçado,E o víamos passar, em plena primavera,Pelo fundo de um grito, enorme e transformado...