Um grão de areia

Luís Delfino (1834–1910)

O grão de areia, que entre nós medeia,É mais fundo que o mar, que se não mede:Tenho a boca de frases de oiro cheiaE a boca vai falar... fala e não pede.

Quem ousa então cortar esta cadeia?À força humana esta cadeia excede?Que abismo encerra em si, cavado adrede,Fundo... tão fundo assim, um grão de areia?

E quantos sonhos amorosos sonho,Para arrasar este vazio! — FormeO mundo ideais deste penar medonho...

Que leão, sem dormir, lá dentro dorme,Que com mundos e sóis, que dentro ponho,Não encho o pequenino abismo enorme?!...