O Remédio

Olavo Bilac (1865–1918)

A Amelinha está doente,Chora, tem febre, delira;Em casa, está toda genteAflita, e geme, e suspira.

Chega o médico e a examina.Tocando a fronte abrasada,E o pulso da pequenina,Diz alegre: “Não é nada!

Vou lhe dar uma receita.Amanhã, o mais tardar,Já de saúde perfeitaHá de sorrir e brincar.”

Vem o remédio. AmelinhaGrita, faz manha, esperneia:“Não quero!”O pai se avizinha,Mostrando-lhe a colher cheia:

“Toma o remédio, querida!Dar-te-hei como recompensa,Uma boneca vestidaDe seda e rendas, imensa...”

—“Não quero!”

Chega a titia:

“Amélia é boa, não é?Se fosse boa, teriaToda uma arca de Noé...”

—“Não quero!”

Prometem tudo:

Livros de figuras cheios,Um vestido de veludo,Brinquedos, jóias, passeios...Teima Amelinha. faz manha.

E diz o pai, já com tédio:—“ Menina! você apanha,Se não toma este remédio!”E nada! a menina grita,Sem querer obedecer.

Mas nisto, a mamãe aflita,Põe-se a gemer e a chorar.Logo Amelinha, calada,Mansa, a colher segurando,Sem já se queixar de nada,Vai o remédio tomando.

—“Então? mau gosto sentiste?”Diz o pai... E ela, apressada:

— “Para não ver mamãe triste,Não sinto mau gosto em nada!”