Surdina

Olavo Bilac (1865–1918)

No ar sossegado um sino canta,Um sino canta no ar sombrio...Pálida, Vênus se levanta...Que frio!

Um sino canta. O campanárioLonge, entre névoas, aparece...Sino, que cantas solitário,Que quer dizer a tua prece?

Que frio! embuçam-se as colinas;Chora, correndo, a água do rio;E o céu se cobre de neblinas.Que frio!

Ninguém... A estrada, ampla e silente,Sem caminhantes, adormece...Sino, que cantas docemente,Que quer dizer a tua prece?

Que medo pânico me apertaO coração triste e vazio!Que esperas mais, alma deserta?Que frio!

Já tanto amei! já sofri tanto!Olhos, por que inda estais molhados?Por que é que choro, a ouvir-te o canto,Sino que dobras a finados?

Trevas, caí! que o dia é morto!Morre também, sonho erradio!A morte é o último conforto...Que frio!

Pobres amores, sem destino,Soltos ao vento, e dizimados!Inda vos choro... E, como um sino,Meu coração dobra a finados.

E com que mágoa o sino canta,No ar sossegado, no ar sombrio!- Pálida, Vênus se levanta.Que frio!