Amor volat

Pedro Kilkerry (1885–1917)

Não, não é comigo que ele nasceu... A sua asaSó a um tempo ruflou desse modo, tamanho!Bateu-me o coração... E outro não sei que, estranho,Rudamente o rasgou como o seu bico em brasa...

Entrou-mo todo, enfim, como quem entra em casaE em meu sangue, a cantar, fez de um boêmio no banho!Oh! Que pássaro mau! E eu nunca mais o apanho!Vês: estou velho já. Treme-me o passo, e atrasa...

Olha-me bem, no peito, o rubro ninho aberto!Hoje fúnebre, a piar, uma estrige ao telhadoE o meu seio vazio! e o meu leito deserto!

E vivo só por ver, como curvo aqui fico,Esse pássaro voar largamente, um bocadode músculos pingando a levar-me no bico!