É o Silêncio...

Pedro Kilkerry (1885–1917)

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.Olha-me a estante em cada livro que olha.E a luz nalgum volume sobre a mesa...Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molhaA pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.Penso um presente, num passado. E enfolhaA natureza tua natureza.Mas é um bulir das cousas... ComovidoPego da pena, iludo-me que traçoA ilusão de um sentido e outro sentido.Tão longe vai!Tão longe se aveluda esse teu passo,Asa que o ouvido anima...E a câmara muda. E a sala muda, muda...Áfonamente rufa. A asa da rimaPaira-me no ar. Quedo-me como um BudaNovo, um fantasma ao som que se aproxima.Cresce-me a estante como quem sacudaUm pesadelo de papéis acima..........................................................................E abro a janela. Ainda a lua esfiaúltimas notas trêmulas... O diaTarde florescerá pela montanha.

E ó minha amada, o sentimento é cego...Vês? Colaboram na saudade a aranha,Patas de um gato e as asas de um morcego.