Palavras d'um certo morto

Antero de Quental (1842–1891)

Odes modernas (1875) — Livro Segundo

Ha mil annos, e mais, que aqui estou morto,Posto sobre um rochedo, á chuva e ao vento:Não ha como eu espectro macilento,Nem mais disforme que eu nenhum aborto…

Só o espirito vive: vela absortoN'um fixo, inexoravel pensamento:«Morto, enterrado em vida!» o meu tormentoÉ isto só… do resto não me importo…

Que vivi sei-o eu bem… mas foi um dia,Um dia só—no outro, a IdolatriaDeu-me um altar e um culto… ai! adoraram-me.

Como se eu fosse alguem! como se a VidaPodesse ser alguem!—logo em seguidaDisseram que era um Deus… e amortalharam-me!