Por que descrês, mulher, do amor, da vida?

Antero de Quental (1842–1891)

Porque descrês, mulher, do amor, da vida?Porque esse Hermon transformas em Calvario?Porque deixas que, aos poucos, do sudarioTe aperte o seio a dobra humedecida?

Que visão te fugio, que assim perdidaBuscas em vão n'este ermo solitario?Que signo obscuro de cruel fadarioTe faz trazer a fronte ao chão pendida?

Nenhum! intacto o bem em ti assiste:Deus, em penhor, te deu a formosura;Bençãos te manda o céo em cada hora.

E descrês do viver?... E eu, pobre e triste,Que só no teu olhar leio a ventura,Se tu descrês, em que hei-de eu crer agora?