Anjo Gabriel

João da Cruz e Sousa (1861–1898)

Na calma irradiação das noites estreladasAlto e claro aparece, alto, aparece, claro,Alvo, claro, no luar das estrelas prateadas,No triunfal esplendor celestemente raro.

O seu busto de Excelso, a sua graça fina,A linha de harpa ideal do seu perfil augusto,Estremecem de luz, de uma luz peregrina,Do secreto fulgor de um sentimento justo.

Serenidade e glória e paz do ParaísoFlutuam-lhe na face alvorecida e doceE quando ele sorri é como se o sorrisoClaros astros semear por todo o espaço fosse.

Leve, loura, .radial, a soberba cabeçaEleva-se da flor do níveo colo louroE não há outro sol que tanto resplandeçaComo o sol virginal dessa cabeça de ouro.

As mãos esculturais, de ebúrnea transparência,De divina feitura e de divino encanto,Lembram flores sutis de sonhadora essênciaDa etérea languidez e de etéreo quebranto.

Das madeixas reais largo deslumbramentoNum flavo jorro cai, com sagrado abandono...E sai do Anjo o quer que é de vago e de nevoentoQue lembra o despertar sonâmbulo de um sono...

De alto a baixo, do Azul, desfilando das brumas,Abre todo ele em flor como nevado lírio,Belo, branco, eteral, do candor das espumas,Banhado nos clarões e cânticos do Empíreo.

Maravilhoso e nobre ergue no braço ovanteUm gládio singular que rútilo cintila...Enquanto o seu olhar de mágico diamanteAflora em plenilúnio através da pupila.

Que o seu olhar, então, esse, recorda tudoO quanto há de tranqüilo e luminoso e casto.Maio de ouro a florir meigos céus de veludoE a neve a cintilar sobre o monte mais vasto.

Do puro albor astral das asas majestosasDesprendem-se no Azul mistérios de harmonia...Entre as angelicais suavidades radiosasParece o Anjo Gabriel o alto Enviado do Dia!

Na chama virginal de tão rara belezaBrilha a força de um Deus e a mística doçura...E sai das seduções de tamanha purezaToda a melancolia errante da ternura.

Do suntuoso agitar das delicadas vestesTecidas de jasmins, de rosas, de açucenas,Vem o aroma cristão dos aromas celestesTodas as imortais emanações serenas...

Transfigurado, excelso, agigantado, imenso,Na candidez hostial das formas impecáveis,Fica parado no ar, levemente suspensoDe raios siderais, de fluidos inefáveis.

Mas quando o seu perfil nas amplidões floresceE das asas se lhe ouve a música sonoraQuando ele agita o gládio e as madeixas, pareceQue vai noctambular pelo Infinito afora.

E alto, branco, de pé, destacado no Espaço,Eleito das Regiões de estranhas Primaveras,Traça, com o gládio no ar, alevantando o braco,Uma cruz de Perdão na mudez das Esferas!