Asas Perdidas

João da Cruz e Sousa (1861–1898)

A Carlos Jansen Júnior

Afora, pelo azul indefinido e largo,Passam asas sutis, pelo éter, longe, afora,Como que a demandar outra mais doce auroraQue a desta vida atroz, toda veneno amargo.

Não as asas assim, bem longe, pela curva,No vago, na amplidão, perdidas pelos aresAté virem caindo os véus crepusculares,Toda a anústia do acaso, emocional e turva.

E diante dessa dor das tardes que esmaecemAs asas, pelo espaço, em vôos desgarradosComo a oração final dos tristes naufragados,Longinquamente, além, tênues desaparecem

Cai então de uma vez a sombra dos segredos.E na serena paz das noites adormidas,Entre o fundo chorar dos calmos arvoredos,Ninguém verá jamais essas asas perdidas.

E as asas o que são no firmamento errantes,Perdidas pelos tempos, esparsas pelas erasSenão os sonhos vãos, mundos alucinantesCheios do resplendor das flóreas primaveras?!

Por isso, eu quando o Azul repleto de asas vejoMuito alto, céu acima, os páramos rasgando,Toda a minh'alma oscila e treme num desejoEm busca das regiões da dúvida, chorando!