Ontem, grande desgraça

João da Cruz e Sousa (1861–1898)

Ontem, grande desgraçaQue o povo se abraçaD’Itajaí em geral!Ontem, o cetro divinoQue se tornando ferinoTudo esmaga afinal!

Ontem, prantos e dor. . .Grandes gritos d'horror...A fatal confusão!Ontem, lampas perdidasDe centenas de vidas,Que nas águas lá vão!

Ontem, negras as vagas,Os belos céus, essas plagas,— Onde existe o Senhor!Ontem, — fatalidade!A pobrezinha cidadeToda envolta em negror!

Hoje, oh! Deus sempiterno!— O teu gládio supernoDe bonança a irradir,Veio ao povo esmagadoAo tredo peso do fadoFazer do caos ressurgir!

Hoje, o íris brilhanteLá nos céus, radiante,Já se faz divulgar!E todo o povo prostradoTe agradece arroubadoMas ainda a chorar!

E corações caridososFarão a dar pressurososOs seus globos gentis!Dai! é doce a esmola!Ela aos pobres consola,Torna-os ledos, gasis!

A miséria choravaEm delírio bradavaPor um pouco de pão!E eles foram dizendo— Ide, pois vos mantendo,Aqui tendes a mão!

E vós — lá no tablado,O mor rasgo, elevado,De fazer acabais!E um rasgo de glóriaDe brilhante memóriaPros vindouros anais!

Vós fazeis do cenárioUm dinal santuárioTrabalhando p’ra pobres!Mostrais bem que nas almasPossuís celsas palmasDe ações muito nobres!

P’ra louvar amadores,Tantas lutas, labores,Tanta excelsa virtude!Ah! me falta uma liraQue um poema desfira...Ai! me falta alaúde!

Só Deus pode dar lourosDe mil glórias, tesouros,Como vós mereceis!Pois que feitos são divos,Tão imensos, altivosSó d’heróis ou de reis!

Amadores briosos!Vós sois tão valorososQual os bravos na guerra!Sois os nautas valentesSocorrendo ridentesQuem cá gema na terra!

Amor, Deus, Caridade— E a sublime trindadeRadiante de Luz!Donde vós, amadores,Lá colheis os fulgores,De mil graças a flux!