Sete de Setembro (Cruz e Sousa)

João da Cruz e Sousa (1861–1898)

Liberdade! Independência!...Eis os brados grandiososQue quais raios luminososFulguraram lá nos céus!...Eis a mágica — OdisséiaQue duns lábios rebentando,Foi o povo transformando,Foi rompendo os negros véus!...

As colinas, prados, montes,As florestas seculares— Os sertões, os próprios maresExultaram com fervor!E os brados retumbaramPela lúcida devesa,Pela virgem naturezaCom homérico clangor!...

Qual artista consumado,Qual um velho estatuárioDo Brasil no azul sacrário,Essa data vos traçou,— O triunfo mais pujante,A eleita das idéias,A major das epopéias— Q'inda igual não se gerou!...

Mas embora, meus senhoresSe festeje a Liberdade,A gentil FraternidadeNão raiou de todo, não!...E a pátria dos AndradasDos — Abreu, Autor:Gonçalves Dias|Gonçalves Dias]]Inda vê nuvens sombrias,Vê no céu fatal bulcão!...

Muito embora Rio Branco,Esse cérebro profundoQue passou por entre o mundo,Do Brasil como um Tupã!...Muito embora em catadupasDerramasse o verbo augusto,Da nação no enorme bustoInda a mancha existe, há!...

É preciso com esforço,Colossal, estranho, ingente,Ir o cancro, de repenteEsmagar que nos corrói!...É preciso que essa Deusa,A excelsa Liberdade,Raie enfim na ImensidadeMais altiva como sói!...

Sai da larva a borboletaCom as asas auriazuisE um disco vai -- de luzA deixar onde passou!No entanto o grande berçoDas façanhas de CabritoInda espera um novo gritoComo o — Basta — de Waterloo!...

Eu bem sei que GuttembergQue esse Fulton primorosoFaust, Kepler grandiosoTrabalharam té vencer!Mas embora tropeçassemAcurando os seus eventos,Tinham sempre tais portentosA vontade por poder!...

Eia! sim! — p’ra LiberdadeIrrompei qual verbo eterno,Como o — Fiat — supernoPelos ares a rolar!Eia! sim! — que nossa pátriaSó precisa — mas de bravos...E em prol desses escravosSeu dever é trabalhar!!...

Somos filhos dessa glebaMajestosa aonde o gênioComo o astro do proscênioSolta as asas, mui febril!Dos selvagens TiaraiúsE dos brônzeos Guaicurus...Somos filhos do Brasil!...

Esperemos, tudo embora!...Pois que a sã locomotiva,Do progresso imagem vivaNão se fez a um sopro vão!.Aguardemos o momentoDas mais altas epopéias,Quando o gládio das idéiasEmpunhar toda a nação!...

Esperemos mais um poucoQ’inda há almas brasileirasQue se lembrarão, sobranceiras,Que é preciso progredir!...Inda há peitos valerososQue combatem descobertosPor florestas, por desertos,Mas c'os olhos no porvir!...

Inda há lúcidas falangesLutadores denodadosQue se erguem transportadosBurilando a sã razão!...Inda há quem se recordeDo Egrégio TiradentesQue do sangue as gotas quentesDerramou pela nação!!...

Já nas margens do IpirangaPatrióticos acentosVão alados como os ventosPelos páramos azuis!!...Vamos! Vamos! -- eia! exulta,Jovem pátria dos renomes...-- Vibra a lira, Carlos Gomes!Bocaiúva, espalha luz!!...