Êxtase

João da Cruz e Sousa (1861–1898)

Quando vens para mim, abrindo os braçosNuma carícia lânguida e quebrada,Sinto o esplendor de cantos de alvoradaNa amorosa fremência dos teus passos.

Partindo os duros e terrestres laços,A alma tonta, em delírio, alvoroçada,Sobe dos astros a radiosa escadaAtravessando a curva dos espaços.

Vens, enquanto que eu, perplexo d’espanto,Mal te posso abraçar, gozar-te o encantoDos seios, dentre esses rendados folhos.

Nem um beijo te dou! abstrato e mudoDiante de ti, sinto-te, absorto em tudo,Uns rumores de pássaros nos olhos.