As Ilhas Afortunadas

Fernando Pessoa (1888–1935)

Que voz vem no som das ondasQue não é a voz do mar?É a voz de alguem que nos falla,Mas que, se escutamos, cala,Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,Sem saber de ouvir ouvimos,Que ella nos diz a esperançaA que, como uma criançaDormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas,São terras sem ter logar,Onde o Rei mora esperando.Mas, se vamos dispertando,Cala a voz, e ha só o mar.