Equecimento

Florbela Espanca (1894–1930)

Esse de quem eu era e que era meu,Que foi um sonho e foi realidade,Que me vestiu a alma de saudade,Para sempre de mim desapar’ceu.

Tudo em redor então escureceu,E foi longínqua toda a claridade!Ceguei... tateio sombras... Que ansiedade!Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro...A sombra dos meus olhos, a escurecer...Veste de roxo e negro os crisântemos...

E desse que era meu já me não lembro...Ah, a doce agonia de esquecerA lembrar doidamente o que esquecemos!...