Farsa de Inês Pereira

Gil Vicente (1465–1536)

A seguinte farsa de folgar foi representada ao muito alto e mui poderoso rei D. João, o terceiro do nome em Portugal, no seu Convento de Tomar, era do Senhor de MDXXIII. O seu argumento é que porquanto duvidavam certos homens de bom saber se o Autor fazia de si mesmo estas obras, ou se furtava de outros autores, lhe deram este tema sobre que fizesse: segundo um exemplo comum que dizem: mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube. E sobre este motivo se fez esta farsa.

A figuras são as seguintes: Inês Pereira; sua Mãe; Lianor Vaz; Pêro Marques; dous Judeus (um chamado Latão, outro Vidal); um Escudeiro com um seu Moço; um Ermitão; Luzia e Fernando.

Finge-se que Inês Pereira, filha de hũa molher de baixa sorte, muito fantesiosa, está lavrando em casa, e sua mãe é a ouvir missa, e ela canta esta cantiga:

Canta Inês:

(Falando)

Inês

Vem a Mãe, e não na achando lavrando, diz:

Mãe

Inês

Mãe

Inês

Mãe

Inês

Mãe

Inês

Mãe

Inês

Mãe

Inês

(Entra Lianor Vaz)

Lianor

Mãe

Lianor

Mãe

Lianor

Mãe

Lianor

Mãe

Lianor

Mãe

Lianor

Mãe

Lianor

Mãe

Lianor

Mãe

Lianor

Mãe

Lianor

Mãe

Lianor

Inês

Lianor

Inês

Lianor

Inês

Lianor

Inês

Lianor

Mãe

Lê Inês Pereira a carta, qual diz assi:

Inês

Lianor

Prossegue Inês Pereira a carta:

Inês

Lianor

Mãe

Inês

Mãe

Inês

Aqui vem Pêro Marques, vestido como filho de lavrador rico, com um gabão azul deitado ao ombro, com o capelo por diante, e vem dizendo:

Pêro Marques

Mãe

Pêro Marques

Inês (à parte)

Assentou-se com as costas pera elas, e diz:

Pêro Marques

Mãe

Pêro Marques

Mãe

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Inês

(à parte)

Pêro Marques

Inês (à parte)

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Pêro vai-se, resmungando, à parte:

Volta, dirigindo-se a Inês:

Inês

Pêro Marques

(Vai-se Pêro Marques e diz Inês Pereira:)

Inês

(Vem a Mãe e diz:)

Mãe

Inês

Mãe

Inês

Mãe

Inês

Mãe

Inês

Aqui entram os Judeus casamenteiros, um, Latão, e outro, Vidal e diz Latão:

Latão

Inês

Vidal

Latão

Vidal

Latão

Vidal

Latão

Vidal

Latão

Vidal

Latão

Vidal

Latão

Vidal

Latão

Vidal

Latão

Vidal

Latão

Inês

Mãe

Inês

Mãe

Inês

Vidal

Inês

Vidal

Vem o Escudeiro, com seu Moço, que lhe traz uma viola, e diz, falando só:

Escudeiro

Mãe (Falando para Inês)

Escudeiro (Falando para o criado)

Moço (à parte)

Escudeiro

Moço (à parte)

Escudeiro

Moço

Escudeiro

Moço

Escudeiro

Moço (à parte)

Chega o Escudeiro onde está Inês Pereira, e levantam-se todos, e fazem suas mesuras, e diz o Escudeiro:

Escudeiro

Latão (a Vidal)

Vidal

Escudeiro

Moço

Escudeiro

Moço

Escudeiro

Moço

(à parte)

Escudeiro

Moço

Escudeiro

Moço (à parte)

(ao Escudeiro)

Escudeiro

Moço

Escudeiro

Escudeiro

Moço

Escudeiro

Moço

Escudeiro Oh que boas vozes tem

Mãe

Inês

Mãe

Inês

Mãe

Latão

Canta o Judeu

Canta o Escudeiro o romance «Mal me quieren en Castilla» e diz Vidal:

Vidal

Latão

Vidal

Mãe

Latão

Vidal

Mãe

Inês

Mãe

Escudeiro

Inês

Escudeiro

Inês

Latão

Os Judeus ambos

Mãe

Mãe

Escudeiro

Inês

Escudeiro

Aqui vem a Mãe com certas moças e mancebos pera fazerem a festa, e diz uma delas, per nome Luzia:

Luzia

Inês

Mãe

Fernando

Cantam todos a cantiga que se segue:

E, acabando de cantar e bailar diz Fernando:

Fernando

Luzia

Mãe

Ida a Mãe, fica Inês Pereira e o Escudeiro. E senta-se Inês Pereira a lavrar e canta esta cantiga:

Inês

O Escudeiro, vendo cantar Inês Pereira, mui agastado lhe diz:

Escudeiro

Inês

Escudeiro

Inês

Escudeiro

Inês

Escudeiro

(para o criado)

Moço (à parte)

Escudeiro

(para Inês)

Moço

Escudeiro

Moço

Escudeiro

Moço

Escudeiro

Moço

Escudeiro

Moço

Ido o Escudeiro, diz o Moço:

Inês

Moço

Aqui fica Inês Pereira só, fechada, lavrando e cantando esta cantiga:

Inês

Entra o Moço com uma carta de Arzila, e diz:

Moço

Inês

Moço

Inês

Moço

Inês

Moço

Inês

Lê Inês Pereira a carta, a qual diz:

Moço

Inês

Moço

Inês

Aqui vem Lianor Vaz, e finge Inês Pereira estar chorando, e diz Lianor Vaz:

Lianor

Inês

Lianor

Inês

Lianor

Inês

Lianor

Inês

Lianor

Inês

Lianor

Vai Lianor Vaz por Pêro Marques, e fica Inês Pereira só, dizendo:

Inês

Vem Lionor Vaz com Pêro Marquez e diz Lianor Vaz:

Lianor

Pêro Marques

Inês (à parte)

Lianor

Pêro Marques

Lianor

Pêro Marques

Lianor

Pêro Marques

Lianor

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Vem um Ermitão a pedir esmola, que em moço lhe quis bem, e diz:

Inês

Pêro Marques

(Inês fala a sós com o Ermitão):

Ermitão

Inês

Ermitão

Inês

Ermitão

Inês

Ermitão

(Inês torna para Pêro Marques):

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Inês

Põe-se Inês Pereira às costas do marido, e diz:

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Inês

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

Inês

Pêro Marques

E assi se vão, e se acaba o dito Auto.