A Cativa

Luís Gama (1830–1882)

Nos olhos lhe mora,Uma graça vivaPara ser senhoraDe quem é captiva.

Camoens.

Como era linda, meu Deus!Não tinha da neve a côr,Mas no moreno semblanteBrilhavam raios de amor.

Ledo o rosto, o mais formosoDe trigueira coralina,De Anjo a bocca, os labios brevesCôr de pallida cravina.

Em carmim rubro engastadosTinha os dentes crystallinos;Doce a voz, qual nunca ouviramDulios bardos matutinos.

Seus ingenuos pensamentosSaum de amor juras constantes:Entre a nuvem das pestanasTinha dous astros brilhantes.

As madeixas crespas, negras,Sobre o seio lhe pendiam,Onde os castos pomos de ouroAmorosos se escondiam.

Tinha o collo assetinado— Era o corpo uma pintura —E no peito palpitanteUm sacrario de ternura.

Limpida alma — flor singelaPelas brisas embalada,Ao dormir d’alvas estrellas,Ao nascer da madrugada.

Quiz beijar-lhe as mãos divinas,Afastou-m’as — não consente;A seus pés de rojo puz-me,— Tanto póde o amor ardente!

Não te afastes lhe supplico,E’s do meu peito rainha;Não te afastes, n’este peitoTens hum throno, mulatinha!...

Vi-lhe as palpebras tremerem,Como treine a flor louçan,Embalando as niveas gotasDos orvalhos da manhan.

Qual na rama enlanguecidaPudibunda sensitiva,Suspirando ella murmura:Ai, senhor! eu sou captiva!...

Deu-me as costas, foi-se emboraQual da tarde ao arrebolFoge a sombra de uma nuvemAo cahir da luz do sol.