O Balão

Luís Gama (1830–1882)

Requeiro oh Musa,Do grande Urbino,Pincel divino,D’alto rojão;De Tasso o genio,De Homero a fama,Que o mundo acclama,D’aurea feição.

Que cantar quero,Vibrando o plectro,Com doce metro,Ancho balão;Erguendo aos aresNovas espheras,Tontas megeras,De rubição.

Guapos rapazes,Velhos caducos,Sandeus, malucos,Por devoção;Que, por pachólas,O siso despem,E á moda vestem,Lá do Japão.

Rompa-se a marcha!Eis um capenga,Que untada a quengaTraz de sabão;Andar cadente,No gesto grave,E grossa traveTem por bastão!

O’ que prosapia!Traja com gosto,Tem o compostoDe um figurão!Vem atacado,E tam rotundo,Que affronta o mundo,Com seu balão!

Desfez-se o homem,E não é peta,Fez-se planeta,— De Escorpião —Tem gaz na pança,Suspiro e bomba,— Astro de tromba,Luz de alcatrão!

Olá! que vejo!Qual nivea estrella,

De luz singela,Tem o clarão!Mimosa fada,Que os genios doma,Ampla redoma,Do Indostão!

Faz mil requebros,Gentil donzella,Qual rosa bellaContra o tufão;Salta e corcova,Como charrua,Quando fluctua,Sem capitam!

Silencio! é ella!Tam vaporosaVem, e formosa,— Que treme o chão!Gordo cetaceo,Deixando os mares,Que affronta os laresSobre um balão!

Eu te saúdo,Oh tartaruga,Bomba taruga,De barracão!Monstro que alojas,Sob os babados,Dez mil soldados,Do rei Plutão!

Planeta aquario,Veloz, possante,Que vaga errante,Sem região;

Pharól tremente,D’estreita barra,Que o leme emparra,Do galeão.

Diz a gazetta,(Caso de fama)Que certa dama,N’uma função,Fora atacada,De flato horrivel,Que a poz hirtivel,No raso chão.

Dose mancebosA carregaramE collocaramSobre um colchão,E a castidade,Sem offenderem,Para fazerem,Fomentação;

Foram tirando,Sem causar maguas.Fofas anaguas,De camelão;Curvadas molas,Arcos de pipa,Cordas de tripa,E um rabecão.

Caixas de guerra,Rouco zabumba,Que além retumba,Como trovão;Felpuda palhaPara viveiros,

Dous travesseiros,E um trombão.

Eis que debaixo,Do tal babado,Pula espantado,De supetão,Tremendo gato,Mirando, afflicto,Mais esquesito,Que um sacristão!

Bradaram todos —Que era feitiço,Ou malificio,De Phaetão,Chamou-se logo,Para o sinistro,Certo ministro,Do alcorão.

Chega o bojudo,Doctor TrapaçasQue tem fumaças,De sabichão;Pega na penna,Lavra a receita,— Para maleita —Chá de gervão.

Suspira a moça,No brando leito,De novo aspeito.Se amostra então;Era a doença,Pobre innocente,A lava ardente,Do seu balão!

Casos de estrondo,Já se tem visto,Que aqui registo,Do tal balão,Attendam todos,Não façam bulha,Que tem borbulha.A narração.

Se algum marujo,Fino tratante,Faz-se de impantePoliticão;Muda de credo,Vira a casaca,— O gaz ataca,No seu balão.

Mas si perdendoA tramontana,Qual Zé banana,Pilha o tufão;Foge ao perigo,Deixa a catraya,Buscando a praya,E’ charlatão.

Inda que berre,Inda que brade,Qual rubro frade,Com mao sermão;Um povo inteiro,Lhe diz em face:E’s um fallaceCamaleão.

Se na fachada,De um bom marido,

Que foi trahido,Surge um pulmão;Exclama a esposa,Que sam esguichos,Ou tubos fixos,Para o balão!

Quem tal diria,Que na fachada,Tam respeitada,Do cidadão;Se assestariam.Torcidas molas,Curvas bitólas,Para o balão!...

Rengas moçoilas,De pernas finas,Teem lamparinas,Oleo e carvão;Para empinarem,O bojo enorme,Do desconforme,Monstro balão

Tambem a velha,De gambia esguia,Traz por mania,Fôfo balão;Mas, rôta a bomba,E’ qual sanfona,Que zune e trona,De cantochão.

Boçaes donzellas,Finas varetas,Magros cambetas,Teem seu balão;

Gaz hydrogenio,Tam sublimado,Que, destampado,Faz de trovão!

Não ha cegonha,Torta gazela,Nem magricela,Que de balão;Não faça rodas,Com tal rebojo,Que vence, em bojo,Nescio pavão!

Nem rapazola,Parvo e pedante,Que todo impante,Qual histrião;Não julgue ousado.Pobre pichote,Ser Dom Quichote,Sobre o balão!...

E tu, oh genio,Sublime e raro,A quem deparo,N’esta invenção;Nas aureas lettrasDa sabia historia,Verás a gloria —Na exposição.