Qual cratera lançando lava ardente

Luís Gama (1830–1882)

Quiz um joven marchar, só por mania,Das lettras pela senda trabalhosa;Diz-se—Vate, mas prenda tam famosaNinguém nos versos seus a descobria.

Começa a dar patada, e tam bravia,Que logo (alçando a voz imperiosa)Lhe brada a Natureza: Chega á prosa!E o maldito a encostar-se á poesia!

(F. X. de Novaes.—Sonet.)

Qual cratera lançando lava ardente,De Pompeia tragando a pobre gente,Novo Anibal os mares agitando,Arbustos e penedos derrubando,

Argentino Qnixote se appresentaCom bulha que as cabeças atormenta!E' Doctor em sciencias sociaes,Conhece toda casta de animaes;Em direito, supplanta o Savigny,Mòrmente quando toma a—Paraty;E nos fastos da grsin filosophiaDiz taes cousas que as carnes arripia!

Da Medicina o novo Chernoviz,Faz charopes, do ferro tira o giz !E, invadindo as bayas do ParnasoO lugar conquistou do tal Pegaso !A sabença nos cascos se lhe aninha,E’ por todos chamado o—Dom Fuinha;E da torva montanha da cachólaPende a velha e sediça craminhola!

Um taful que encarou o tal portentoAffirma que o coitado era jumento;E querendo provar o que dizia,Mostrava uma castrada poesia:D’asneiras enchurrada furibundaOnde o erro fallaz superabunda:Era prosa sediça, mui safadaAsneira sobre asneira amontoada!E no fim da maçante frioleiraA firma do gran vate—babuzeira.

Correu, em peso, a sabia Academia,Para ver o planeta que luzia;Tambem veyo a Policia, a Medicina,Discutir tanta asneira em sabbatina!Miraram do alto a baixo o sacripanteE vendo que o maroto era pedante,Na barca de Caronte o encaixaram,P’ra casa dos orates o mandaram.

Lá se foi o talento desmedido,Todo o povo deixando espavorido,Habitar os saloens d’um hospitalOnde cura terá para o seu mal.