É preciso morrer

Luís Delfino (1834–1910)

O que consola a dor de amar é ser amado:Mas ser amado só, sem dúvida ou cansaço;Poder dormir um sono inteiro no seu braço,Viver do leite do seu corpo perfumado.

Aquecer-se na luz do seu olhar doirado;E não ter outro céu, e não ter outro espaço,Senão o que ela tem, senão esse pedaçoDe chão que pisa, ou chão que vem de ser pisado.

Vivi de um sonho, sei; — vivi duma quimera;Ela não pode amar-me: ela me diz: — Espera:Porque não quer matar-me, e não, dizer tem medo.

Mas... preciso morrer já de qualquer maneira,À sombra dela, como a da mancenilheira,Ou esmagado sob o seu divino dedo...