Anarda saindo fora

Manuel Botelho de Oliveira (1636–1711)

Alerta peitos, alerta,Que sai a gentil Anarda,Aquele acinte das rosas,Aquele arrufo das graças.

Desafia a todo o peito,Ilustremente alentada,Tendo a graça valentona,Tendo a beleza fidalga.

Ostenta com dois motivos,Mui soberba, mui bizarra,O seu brio à Portuguesa,O seu pico à Castelhana.

Com seus olhos de azeviche,Com sua flórida caraAos astros dá belas figas,Aos jasmins faz muitas raivas.

Mostrando-se mui senhora,Aos escravos peitos davaDe um menosprezo as injúrias,De um rigor as bofetadas.

Ao mesmo tempo se juntamNa fermosura adoradaOs rigores de QuaresmaEntre alegrias de Páscoa.

Estocadas dá de penas,De amores fulmina balas,Se as graças desembainha,Se os resplandores dispara.

Nas mangas de holanda belaContra Amor rebelde se arma;Por Holanda a holanda vejo,Por mangas receio as mangas.

Castigando-a por traidoraO Rei menino, formavaO cadafalso do colo,O degolado da gala.

É Céu a beleza sua,Quando o manto se adornava,Servindo o manto de glória,Servindo a garça de graça.