Memória do dedo

Manuel Botelho de Oliveira (1636–1711)

A ũa dama, que tropeçando de noiteem ũa ladeira, perdeu umamemória do dedo<poem>}}

<poem>Bela turca de meus olhos,Corsária de minha vida,Galé de meus pensamentos,Argel de esperanças minhas;

Quem te fez tão rigorosa,Dize, cruel rapariga?Deixa os triunfos de ingrata,Busca os troféus de bonita.

Não te queiras pôr da parteDe minha desdita esquiva:Que a beleza é muito alegre,Que é muito triste a desdita.

Se ostentas tanto donaireCom fermosura tão linda,Segunda beleza formasQuando a primeira fulminas.

E se cair na ladeiraManhosamente fingias,Tudo era queda do garbo,Tudo em graça te caía.

Não tinha culpa o sapato,Que o pezinho não podia,Como era coisa tão pouca,Com beleza tão altiva.

Botando o cabelo atrás,(Oh que gala, oh que delícia!)A bizarria acrescentas,Desprezando a bizarria.

Toda de vermelho ornada,Toda de guerra vestidaFazes do rigor adorno,Fazes da guerra alegria.

A tantas chamas dos olhosTeu manto glorioso ardia;Por sinal que tinha a glória,Por sinal que o fumo tinha.

Liberalmente o soltaste:Que era o teu manto, menina,Pouca sombra a tanto Sol,Pouca noite a tanto dia.

Se de teu dedo a memóriaPerdeste, é bem que o sintas;Que de meu largo tormentoTens a memória perdida.

Dar-te-ei por melhores prendas,Que minha fé te dedica,Dois anéis de água em meus olhos,Que de chuveiros te sirvam.

Agradece meus cuidados,E recebe as prendas minhas;Se tens da beleza a jóia,Os brincos de amor estima.

Se cordão de ouro pretendesPor jactância mais subida,Aceita a prisão de uma alma,Que é cordão de mais valia.

A todos estes requebrosNão quis atender Belisa,Que se é diamante em dureza,Só de diamantes se alinda.