A Pítia

Olavo Bilac (1865–1918)

"Repetiu-me Apolo o vaticínio: que euseria o assassino de meu pai; e rei; emarido de minha mãe, sem a conhecer;e tronco de uma prole infame!..."(SÓFOCLES - Édipo Rei.)

Em Delfos. Com pavor, de pé, no ádito escuro,Édipo escuta... O deus, rugindo de ira e ameaça,Pela boca da Pítia em êxtase, devassaO tempo, e o arcano véu destrama do futuro:

"Rolarás do fastígio à ignomínia e à desgraça!Rompendo de um mistério o impenetrável muro,Num sólio ensangüentado e num tálamo impuroGerarás, parricida, a mais odiosa raça!"

É a Esfinge, a glória, o reino, o assassínio de Laio,E o amor sinistro... Assim troveja a voz de ApoloE enche o sacrário... O céu carrega-se de bruma;

Fuzila; estruge o chão; reboa no antro o raio...E, enquanto Édipo tomba inânime no solo,Sobre a trípode a Pítia, em baba, ulula e escuma.