Pantum

Olavo Bilac (1865–1918)

Quando passaste, ao declinar do dia,Soava na altura indefinido arpejo:Pálido, o sol do céu se despedia,Enviando à terra o derradeiro beijo.

Soava na altura indefinido arpejo...Cantava perto um pássaro, em segredo;E, enviando à terra o derradeiro beijo,Esbatia-se a luz pelo arvoredo.

Cantava perto um pássaro em segredo;Cortavam fitas de ouro o firmamento...Esbatia-se a luz pelo arvoredo:Caíra a tarde; sossegara o vento.

Cortavam fitas de ouro o firmamento...Quedava imoto o coqueiral tranqüilo...Caíra a tarde. Sossegara o vento.Que mágoa derramada em tudo aquilo!

Quedava imoto o coqueiral tranqüilo.Pisando a areia, que a teus pés falava,(Que mágoa derramada em tudo aquilo!)Vi lá embaixo o teu vulto que passava.

Pisando a areia, que a teus pés falava,Entre as ramadas flóridas seguiste.Vi lá embaixo o teu vulto que passava...Tio distraída! - nem sequer me viste!

Entre as ramadas flóridas seguiste,E eu tinha a vista de teu vulto cheia.Tio distraída! - nem sequer me viste!E eu contava os teus passos sobre a areia.

Eu tinha a vista de teu vulto cheia.E, quando te sumiste ao fim da estrada,Eu contava os teus passos sobre a areia:Vinha a noite a descer, muda e pausada...

E, quando te sumiste ao fim da estrada,Olhou-me do alto uma pequena estrela.Vinha a noite, a descer, muda e pausada,E outras estrelas se acendiam nela.

Olhou-me do alto uma pequena estrela,Abrindo as áureas pálpebras luzentes:E outras estrelas se acendiam nela,Como pequenas lâmpadas trementes.

Abrindo as áureas pálpebras luzentes,Clarearam a extensão dos largos campos;Como pequenas lâmpadas trementesFosforeavam na relva os pirilampos.

Clarearam a extensão dos largos campos. .Vinha, entre nuvens, o luar nascendo...Fosforeavam na relva os pirilampos...E eu inda estava a tua imagem vendo.

Vinha, entre nuvens, o luar nascendo:A terra toda em derredor dormia...E eu inda estava a tua imagem vendo,Quando passaste ao declinar do dia!